Em Brasas - II - Um monte delas


 


  Querido Willie, 


 Eu sinto falta de tudo e mais um pouco que te envolve. Eu me isolei. Yuri as vezes tenta falar comigo, mas eu dou um gelo nela e fujo. Me sinto um covarde por fugir das pessoas que me remetem a você, mas eu não tenho escolha. 

 Não quero admitir que cada coisa que lembro a seu respeito me dilacera, mas não quero voltar a ser o aluno antipático que eu era antes de te conhecer, Will. 

 Você foi uma das melhores coisas que me aconteceu em toda a porra da minha vida e eu amo você. 


 Eterna saudade, 

 seu Neecks. 





Nico franze a testa em descontentamento ao terminar a carta. Está curta e ele odeia que a complexidade de seus sentimentos não pareçam bem expressadas naquelas linhas. Pensa em rasgar a folha e começar de novo, mas Reyna repousa a mão em seu ombro e o impede. 


— Você não precisa escrever um TCC para expressar sua dor e saudade por ele. 


— Mas ele é importante pra mim. Merece mil vezes mais do que isso. — Aponta os poucos parágrafos no papel. 


 A Ramírez beija o topo da cabeça dela. 


— Escrever uma ou dez páginas não quer dizer que você o amou mais ou menos. Não importa a quantidade, mas sim a qualidade. — Ela mexeu no colar de sol que ele usava. — Você se derramou de corpo e alma nesta carta, mesmo que curta. Não se cobre. 


 Nico sentiu que seu coração se estilhaçara tanto que não passava de um pô dentro do seu peito. Tudo doía duvido aos infinitos sentimentos ruins que vinha experimentando na potência máxima. Vergonha, medo, dor, culpa, desolação. Tinha a sensação que tinha construído a coisa mais importante de sua vida e tudo se esvair.

 Thalia entrou no quarto, interrompendo o momento. 


— Nico... 


— Agora não, Tha. — Repreendeu Reyna. 


— ...o Leo quer falar com você. Ele está na sala. 


— Thalia Grace, você não vê que ele prec... 


— Tá tudo bem. 


 O moreno secou os olhos e se levantou. 


— Vou lá falar com ele. — Disse, saindo do quarto. 


 Leo Valdez e Nico Di Angelo são melhores amigos há muito tempo, mas acabaram se afastando quando o latino se mudou. Só voltaram a se falar depois que Will incentivou isso e o Valdez até conseguiu convencer o pai a voltar pra cidade. Nico vinha evitando o garoto desde a morte de Will. 

 Como esperado, Leo estava sentado no sofá. As mãos inquietas mexiam em um bonequinho de metal que tinha há anos. Nico tem um igual. O símbolo da amizade deles. 

 Quando o garoto viu-o, se levantou e o abraçou com força. 


— Desculpa. — A voz embargada do Valdez transbordava culpa. — Eu... deveria...


— Do que você tá falando? Por que você está pedindo desculpa, Leo? Pelo o que você está se desculpando? 


 O moreno conseguia sentir seu ombro sendo umedecido pelas lágrimas do melhor amigo. 


— Eu deveria... — Um soluço. — ...ter mantido mais contato. Deveria ter sido a vela dos seus encontros. Deveria ter feito questão de estar perto. 


 A respiração dele se acelerava e se embaralhava a medida que Leo ficava mais afobado ao falar. O Di Angelo estava atordoado. Vê-lo assim parecia um pesadelo bizarro, mas era real. 


— Por que você está dizendo essas coisas? 


— Porque assim você estaria mais confortável em passar por tudo isso comigo ao seu lado. Eu quero ser o melhor amigo da sua vida. Quero estar por perto pra te consolar sempre que você precisar. Quero enxugar suas lágrimas e dizer tudo o que for necessário pra te ajudar. Quero poder mostrar a você outras formas de enxergar a vida. Quero ser uma pessoa importante pra você. 


— Você é. E me desculpa por te fazer sentir tão deixado de lado e desvalorizado. Me desculpa por aquela vez que eu furei com você por causa do Will. Olha, por que você quer continuar sendo meu amigo? Veja só quantas coisas ruins eu fiz você passar e faço até hoje. 


— Nico, todo ser humano, uma hora ou outra, vai ser extremamente babaca e filha da puta com alguém. Eu fui muito ruim com Frank, muito mesmo. Só os deuses sabem quanto. 


 Aquela ideia era difícil de assimilar. 


— E tudo bem que a vítima da sua babaquice seja eu. — Continuou. — Eu perdoo porque eu sei que você o amava e só queria ele desde o momento que acordava até a hora em que adormecia. 


 Nico chorou. Chorou porque era verdade. Esquecera de Leo em vários momentos, mas não por não se importar com ele. Se importava, até demais. 


— Te vejo esta noite? 


 Di Angelo assentiu, lágrimas inundando sua visão e a turvando. 




X                           X                   X      




 Nico tinha os olhos inchados e uma garrafa de água ao lado para se hidratar. Tinha algumas cartas nas mãos, as apertando como se fossem uma passagem de ida para onde Will estava. Não eram, no entanto. 

 A fogueira crepitava sob o silêncio da melancolia e não demorou para que as cartas fossem jogadas nas chamas. O papel enegreceu e se dobrou, virando cinzas. Palavras queimando como se nada houvessem sido. Fogo consumindo a dor que recaia nos ombros do moreno. A realidade de tê-lo perdido. 




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