A pergunta fez meu cérebro travar por um momento. Eu sempre deixei bem claro que ele é bonito, divertido e interessante. A quantidade de noites que a gente virou conversando são tantas que eu não consigo mais contar nos dedos. Entre beijos e momentos de silêncio confortável, conversamos tanto sobre tantas coisas que minha garganta já ficou rouca no dia seguinte. Mas é só aquele merda do Octavian dizer o contrário que ele cai na lábia.
Meu choque e decepção ficam visíveis em meu rosto, as lágrimas se formam em meus olhos. Eu quero que Will se sinta bem consigo mesmo. Quero que ele se aceite e que entenda que nada disso é culpa dele. Mas sua dor também me machuca. Ao tentar ajudá-lo a ser mais aberto, eu me machuco com seus ferimentos e meu amplo esforço tem se mostrado ser em vão. Mas eu não quero abrir mão dele e do amor que nutri e construí por ele.
— O que? — Pronunciei, trêmulo.
— Eu sou desinteressante? — Repetiu. — É chato me ouvir falar de heróis e...
Ele não terminou a frase. Fui até ele, mesmo com medo, e peguei suas mãos nas minhas. Neguei veementemente com a cabeça e o olhei nos olhos, tudo para que ele entendesse.
— Meu amor, jamais. Nem nos meus piores sonhos. — Sussurrei. — Sua voz é a coisa mais gostosa que eu já tive o prazer de escutar. Amo passar a noite toda conversando com você. Perderia todas as horas de sono pra estar com você.
Até a última palavra sair dos meus lábios, o loiro mantinha a feição séria, mas esta logo se suavizou. O medo latejava em meu peito. Medo de perder Will por causa de algo que Octavian conseguiu colocar na cabeça do meu namorado. Não é justo. Faz mais de dois meses, quase três, que eu estou construindo uma relação com a pessoa mais maravilhosa que eu já conheci e fazem três dias que aquele puto anêmico está aqui, destruindo tudo.
— Não sei se consigo acreditar. — Solace responde, afastando minhas mãos e desviando os olhos.
O choque me atingiu como um balde de água fria. Observo Will se afastar para impedi-lo de sair caso ele tente. Faço isso sem deixar de olhá-lo, pondo as mãos no batente da porta para que servisse de barreira. Eu odeio não poder fazer mais do que isso. Odeio que todo o meu esforço e dedicação tenha sido jogado na porra do lixo.
一 Não fiquei magoado, meu anjo. 一 Ele disse quando segurei um soluço. 一 Logo você encontrará alguém melhor que possa ser seu novo amor.
一 Eu não quero encontrar alguém! Não tem outra coisa melhor que você. Eu pensei que tinha deixado bem claro. Eu quero você. Eu amo você, Willie. 一 Chorei, minha visão ficando embaçada pelas lágrimas. 一 Mas você prefere acreditar em um filha da puta como Octavian do que nas palavras que saem da minha boca.
一 Não espero que entenda o que eu sinto nessa situação, Nico.
一 E quanto a mim?!? O que eu sinto não importa pra você?
Ele respondeu.
一 Eu me entreguei de corpo e alma! Me dei a você em uma bandeja. Gostei de você desde o primeiro momento em que te vi e me esforcei para ser notado por você desde o nono ano, mas só agora eu namoro com você. Porra, eu transei com você!
一 E significou muito, eu te juro.
一 Então por que caralhos você tá arrumando suas coisas? Por que vai embora?
A raiva se esvaiu nas lágrimas. Eu não queria que ele fosse. Queria ser capaz de fazê-lo ficar.
一 Você merece um namorado melhor. 一 Disse.
一 Impossível.
一 Você merece mais.
一 Impossível.
一 Você merece mais do que eu posso oferecer, Nico.
一 Ninguém jamais me deu e ninguém jamais será capaz de me dar mais do que você, então eu volto a repetir: Impossível!
Ele fez careta diante da minha teimosia.
一 Eu tentei melhorar por você, mas eu não consigo. Parece que estou pior. 一 Desabafou.
一 Me deixa ajudar. Se permita ter ajuda de outra pessoa. Sozinho você não consegue, mas com ajuda terá uma enorme chance.
Os olhos de Will imploraram para que eu parasse. Parasse de falar, parasse de tentar, parasse de olhar pra ele. Chorei com mais força. Pequenas lembranças nossas repassando na minha cabeça enquanto meu coração doía como o inferno. Um lembrete de tudo o que eu estava perdendo por causa de um filha da puta que já tinha me sabotado antes. A realidade pesou nos meus ombros.
Solace pegou a mochila e pôs nos próprios ombros. Parecia pesada, mas não ofereci ajuda. Ele negaria, de qualquer forma. Uma tristeza mórbida me envolveu. A dor em meu peito era insuportável e impossível de ignorar, Lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas não fiz nada pra evitar ou limpá-las. Tudo em mim doía.
Quando Will passou por mim, meu coração já machucado se quebrou em milhares de pedaços. Pus uma mão contra a boca para conter o soluço que ameaçou eclodir da minha garganta. Se ele percebeu, não deixou transparecer. Parou atrás de mim, como se quisesse dizer alguma coisa. Por um momento, desejei um último beijo ou abraço antes que ele partisse. Depois me senti mal por querer ou esperar algo assim vindo dele.
一 Não sou bom o bastante pra você.
一 Não, não é. 一 Sussurrei, trêmulo e quase sem voz. 一 Você é tudo. Mais do que eu mereço.
Will não protestou. Contestar seria inútil e não nos levaria a lugar nenhum. Seus passos ecoaram pelo corredor, se tornando cada vez mais distantes a medida que ele se afastava. Quando enfim a porta da frente foi fechada, tudo desmoronou dentro de mim. E assim foi. Sem beijo de despedida, um "até logo" ou um "boa sorte". Nenhum mísero toque ou contato visual.
O que me doía mais era saber que eu tinha falhado. Tentei ajudá-lo e posso até ter piorado tudo. Eu tentei ser o ponto de apoio que ele precisava, tentei ser a pessoa que ele precisava que eu fosse. Mas eu estraguei tudo. Fiz algo errado e fodi com tudo mais uma vez. Veja bem, eu já passei por decepções amorosas antes. Encerrei relacionamentos e tals. Mas com Will sempre é diferente. Eu o amo como nunca amei ninguém e não quero que ele vá.
🌔 ✲ 🌔
Faltei uns dias de aula, o que preocupou minha família. Eu nunca fui assim. Toda vez que um namoro acabava, eu já saía com outra pessoa logo em seguida, então o fato de um namoro de um mês e três semanas ter terminado e eu estar trancado no quarto era uma novidade chocante para as pessoas que conviviam comigo. Eu não poderia me importar menos com a opinião alheia sobre meu estado emocional.
Bianca tentou me aconselhar a não me fechar na minha própria dor e ao menos tentar seguir em frente. Não me orgulho disso, mas... Eu gritei com minha irmã mais velha. Disse a ela que não tinha como ela entender, que eu amo Will e que não era tão fácil esquecê-lo. Haz não tentou me dar uma lição de moral, não ameaçou Will de morte e assistiu meus filmes favoritos comigo, todos de terror e suspense, o que ela odeia.
Leo veio até minha casa, pra me consolar e conversar. Contou o que rolou no corredor com mais detalhes, inclusive sobre o que tinha conversado com Will em particular. Valdez nunca tinha falado de Connor para outra pessoa que não fosse Frank, então aquele é um grande posso para a superação total.
Dentre todas as outras pessoas, só Leo e Hazel pareciam entender que a culpa não era de Will. Ele estava machucado demais e pessoas machucadas machucam as outras antes que estas tenham a oportunidade de machucar de novo. Eu quero protegê-lo, quero ajudá-lo a ter consciência de que ele é incrível (na verdade, incrível é até pouco para defini-lo), quero estar lá quando ele mais precisar. Não importa o quanto isso venha a doer, quero pertencer a Will Solace.
一 Mas e quanto aos apelidos que o Frank te chamou? Os apelidos, as palavras sussurradas...
一 Ele disse tudo na língua nativa e desviou o assunto depois quando perguntei o que significava cada frase. 一 Deu de ombros.
Abri um sorrisinho, mesmo que fazer isso ainda me causasse uma pontada no peito.
一 Eu acho que ele gosta de você, Leo.
Valdez franziu o cenho, duvidando.
一 Não me olhe assim. Você tem muito mais proximidade e intimidade com Frank do que eu. Nunca parou pra pensar em como seria namorar com ele ou ao menos se vocês ficassem?
O rosto corado do meu amigo latino entregou-o. Ele já tinha pensando em alguma, ou todas, dessas possibilidades. Sua expressão mudou, se tornando pensativa e carregada de incerteza.
一 Eu ainda não superei totalmente o Connor, Nico. Frank é um cara legal, é gentil. Não quero iludi-lo se não vier a sentir algo a mais.
一 A questão é justamente o seu receio te impedindo de ao menos tentar. Para de supor as coisas e só faça acontecer. Tente, mas antes tenha certeza de que ele nutre algo romântico por você.
一 Porque seria um vexame se for só admiração.
一 Exato.
一 Mas e quanto a Connor?
一 Ele que se foda! Leo, ele não foi seu único namorado e não pode ser o último. Já vão fazer quatro anos!
Ele assentiu sem acrescentar nada.
一 Vou prestar mais atenção nos sinais.
一 Nada melhor do que uma paixão nova para deixar que a antiga caia no esquecimento.
Valdez revirou os olhos, mas abriu um sorriso.
一 Ei, quer saber como está o Oclixo?
Me sentei de forma mais confortável na cama e assenti, esperando que o latino começasse o falar sobre o cara que atormentou nossas vidas. Ele limpou a garganta, dramático.
一 O nariz quebrado deixou a voz dele tão engraçada que ninguém leva a sério o que aquele anêmico de merda fiz. É tão divertido vê-lo irritado. Além de que todo o time de vôlei está zoando Octavian por ter sido xenofóbico com Frank.
一 Ele merece. Acha mesmo que eles iam abaixar a cabeça depois do que o Oclixo disse?
一 Nah. Aqui se faz, aqui se paga.
Leo pegou duas latinhas de Monster e me deu uma.
一 E outra: Will não apareceu na escola mesmo após o fim da suspensão. Tá todo mundo comentando que ele fez o que todos queriam ter feito.
Tomei um grande gole sem dizer nada. Eu não culpava meu ex pelo que rolou entre nós, isso eu deixo bem claro, mas dói essa mudança na nossa relação. Ele não é mais meu namorado. Ele não é mais "meu" e eu não sou mais "dele". Eu gostava de pertencer ao Solace, de alguma forma. Ser de alguém, mas não de qualquer pessoa. Dele.
🌔✲🌔
Criei coragem de ir pra aula depois de mais de uma semana após o término. Os cochichos nunca tinham me incomodado, até o dado momento que eu só queria desaparecer. O principal problema de ser popular é a exagerada atenção que as pessoas dão a cada mísera coisa que você faz e diz. Não importa o que for, todos ficam olhando. Por isso, você tem que tomar muito cuidado.
Era terça-feira quando eu pus o pé naquele inferno de novo. Quis que as pessoas aprendessem o significado de sussurrar. Qual era a dificuldade de ser discreto? Credo... Leo não saiu do meu lado, o que me foi um alívio. Tudo o que eu precisava pra aguentar aquele dia era o meu melhor amigo me apoiando e dispersando curiosos. Bem, Octavian rindo de mim era mais do que eu conseguia suportar.
一 O que foi, Di Angelo? Levou um pé na bunda e ficou apático? Não sabia que tinha chegado nesse nível.
As pessoas até podiam estar ignorando-o por causa da vozinha ridícula, mas suas palavras me ferveram o sangue. Will ter atingido seu limite é culpa dele. E eu jamais perdoaria-o por isso. Leo estava conversando com Frank, os cochichos estavam insuportáveis e... eu tenho limite de estresse. Fui até ele e o ergui da cadeira pela gola da camisa.
一 Cala a porra da boca. 一 Ordenei, devagar para que aquele acéfalo entendesse.
Senti os olhares de todos ao redor me secando e tive vontade de evaporar. Por que caralhos eu tinha me tornado popular? Pra provar algo pra alguém? Pra mostrar pro Octavian que eu conseguia? Não foi apenas pra ser visto pelo Will. Se fosse só isso, eu teria ido até ele e puxado papo, mesmo com vergonha ou timidez. Então... Por que?
一 Apático, com certeza. 一 Sorriu o Oclixo. 一 O que houve com o seu controle emocional? Aquele loirinho nerd levou junto com ele quando foi embora?
Joguei-o contra o banco que aquele idiota estava sentado antes mas não o soltei, o que fez ele bater a cabeça na mesa de pedra e voltar. Pela expressão atordoada, vi que a pancada causou-lhe tontura. Não me preocupei com isso.
一 Eu mandei calar a porra da sua boca de merda, seu filho da puta. 一 Sussurrei, a raiva me corroendo por dentro. Eu ia explodir de ódio.
Então o vice-diretor veio e separou a gente. Octavian foi para a enfermaria e eu pra sala do sr. D. . Tomei uma água para me acalmar, me sentindo um pouco melhor depois de me dar conta de que aquele oxigenado quase teve uma concussão. O sr. D. me deu uma advertência e disse que eu só entraria na escola no dia seguinte com minha mãe. No fim, eu não poderia me importar menos.

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