Além do celular, foi me tirado a chave do meu quarto, a que eu carrego como um pingente em meu colar. Fui trancado nos meus aposentos após o almoço e estava proibido de sair. Hades tirou de lá minha TV e boa parte dos meus livros. Meu videogame foi confiscado até segunda ordem.
O pior de tudo era ouvir as mensagens chegando e as ligações de Will sem poder responder ou atender. Reconhecia que eram chamadas dele porque eu coloquei um toque especial para seu contato. Meu pai recusava as ligações e ignorava as mensagens. Doía de mais pensar que ele ainda queria que eu terminasse com o meu raio de sol.
Bia vinha me trazer as refeições, mas voltava a trancar o quarto por fora antes de sair. Me recusei a comer. Eu estava irritado. Irritado com todos eles. Foi só um amasso. Que droga! Nunca desejei tanto que minha mãe estivesse ali. Ela poderia acalmar o meu pai e trazê-lo a razão. Ela sim tinha a capacidade de me ajudar. Ela me entenderia.
Hades não falou comigo e ameaçou me bater de novo quando comecei a xingá-lo em italiano. Me encolhi quando ele ergueu a mão. Hazel me protegeu com determinação. Se pôs na minha frente, usando o corpo como barreira e xingou-o em francês, olhando-o fundo nos olhos. Quando levei o tapa, gritou e veio em meu socorro imediato. Tentou impedir que ele falasse mais algo que pudesse me machucar.
No primeiro dia que fiquei trancado, mandei meu pai e mais três gerações antes dele irem tomar naquele lugar. Era uma quarta-feira, mas essa era a pior que eu estava vivendo. Tentei me distrair com livros, entretanto eu só conseguia pensar em William e no quanto eu sentia sua falta.
No segundo dia que fiquei trancado, a raiva ainda queimava em mim. Pela janela pude ver que Hades e Haz estavam limpando o quintal. Vasculhei minhas coisas e encontrei minha chave reserva, bem escondida em minhas roupas íntimas. Arquitetei um plano de emergência.
Peguei minha mochila de viagens, a que usei para ir a casa de praia de Leo, e coloquei mudas de roupa. Peguei dinheiro suficiente. Coloquei com cuidado a vhave da fechadura, virando devagar para que não fizesse barulho. Não achei meu celular. Deveria estar com ele. Fui a passos lentos para a sala.
Bia estava na cozinha e me viu. Mordeu o lábio, como se eu estar ali fosse ruim. Percebeu o que eu pretendia assim que viu a mochila. Indicou a porta com a cabeça e sussurrou "Vai". Disparei porta a fora, indo para o ponto de ônibus. Peguei um que me deixaria perto do prédio de Will. E foi assim que eu fugi de casa pela primeira vez.
✲ ✲ ✲
Solace me recebeu com surpresa, o telefone na mão, enquanto tentava me telefonar de novo. Me fez entrar e contei tudo a ele. Eram umas cinco horas quando cheguei. Chorei de alpivio por estar perto de Andrew outra vez. O loiro perguntou se eu ia para outro lugar, mas neguei.
一 Nesse caso... 一 Coçou a nuca. 一 ... você pode ficar aqui até as coisas se ajeitarem. Ou até quando quiser.
Assenti. Sexta-feira teria aula e meu pai notaria que eu não estava mais lá. Eu ia falar com ele, mas depois de me preparar mentalmente e emocionalmente para isso. Recordo-me que esperava que meu pai ficasse bravo por ser chamado na escola, mas não esperava que me batesse e fosse me dar um castigo tão duro. Agora, esperava pela pior que pudesse ocorrer. Esperava o pior dele.
一 Sole, você vai amanhã? 一 Perguntei, vendo-o pegar outro lençol no armário porque fiquei com frio.
一 Não irei se precisar de mim aqui. 一 Respondeu, se aconchegando ao meu lado.
Alisei seus cachos em meus dedos, contente por poder tocá-lo de novo. Aquele tempo que eu fiquei trancado sem poder sair foi horrível. Passei todo esse tempo isolado pensando no meu namorado incrível. Eu não ia terminar com ele. Jamais faria algo tão estúpido. Puxei seu rosto de leve contra o meu, não resistindo a vontade de beijá-lo.
Will correspondeu, mas não se excedeu. Abraçou-me pela cintura e me ajeitei melhor em seu peito. Eu não queria me afastar. Tinha algo dentro de mim que me instiga a ir cada vez mais longe. Depois de um bom tempo me contendo e tomando cuidado, só tinha vontade de jogar a cautela no lixo.
一 Eu quero, mas não preciso. 一 Sussurrei. 一 Pode ir pra aula amanhã. Se você não for, vão suspeitar.
Ele assentiu.
一 Durma bem, meu anjo. 一 Desejou-me.
✲ ✲ ✲
O telefone tocou.
一 Alô?
Will estava na escola, mas deixou seu celular comigo para emergências. O contato que ligou estava intitulado de "Elfo flamejante", ou seja, Leo. Atendi, reconhecendo a voz que me chamou de mi vida. O loiro perguntou se eu queria falar com Bianca e respondi que sim. Ele logo passou pra ela.
一 Nico? É você? 一 Parecia preocupada.
一 Sim, sou eu, Bia.
一 Como você está?
一 Melhor... E o papai?
一 Louco de preocupação. 一 Suspirou. 一 Não sabe que eu sei e que deixei, mas vou contar.
一 Bianca...
一 Oi?
一 Eu te amo. Obrigado por cuidar de mim.
一 Estou tentando ser uma boa irmã.
一 Já conseguiu ser faz tempo.
一 Eu também te amo.
✲ ✲ ✲
Avisei a ela que não voltaria tão cedo pra casa e Bibia entendeu o meu lado. Eu estava receoso, mas parte da minha insegurança me deixou após ouvir, da boca da minha irmã, que meu pai estava louco de preocupação. Haz mandou um bilhete através do Solace. O bilhete dizia para que eu ficasse bem e que esperava me ver em breve.
O resto da sexta-feira foi tranquilo. Assistimos algo e o ajudei com o dever de casa. Era bom estar ali com ele, sozinho. Fantasiamos que éramos casados e estávamos fazendo faculdade. Foi divertido. Ele usou mais apelidos românticos que o normal, me elogiando ao pé do ouvido. Ri quando ele inventou uma criança também. Fui na onda.
Depois das onze, decidimos que era melhor irmos dormir. Will me abraçou por trás. Senti sua respiração na minha nuca e todo o seu corpo colado ao meu. Evitei pensar demais, mas o loiro resmungava enquanto dormia. Talvez estivesse beirando a semiconsciência porque eu me mexi um pouco, desconfortável, e ele acordou.
一 Algo errado? 一 Perguntou-me. 一 Algum problema?
Senti um arrepio percorrer minha coluna. Mordi o lábio para evitar arfar.
一N.não é nada.
Suas mãos, que estavam no meu quadril, desceram. Tentei impedi-lo, mas não funcionou. Gemi quando ele pressionou aquele lugar. Andrew se afastou e ligou a luz do quarto. Me esforcei ao máximo para não ser visto entre as cobertas, mas o meu sol me prensou contra a cama, prendendo os meus pulsos acima da minha cabeça.
Me debati, sentindo-o afrouxar o aperto. Diferentemente do que houve com meu pai, não lembrei de uma certa pessoa. Seu toque era carinhoso e não agressivo. Seus olhos azuis esquadrinharam o meu rosto, como se tentasse saber o que estava pensado pela expressão. Sua mão livre voltou a descer, achando o "problema". Gemi baixinho.
一 Neecks, você tá...
一 De pau duro? 一 Corei. 一 Estou. Por sua causa.
William ficou com o rosto vermelho.
一 Eu acho melhor você... se aliviar. Vai lá no...
Neguei com a cabeça. Peguei impulso pra cima e capturei sua boca com a minha. Que se foda o Max. Que se foda o sr. D. Que se foda Quíron. Que se foda o meu pai, praguejei. Eu sou um adolescente que tem um namorado maravilhoso e gostoso pra cacete. Nem curtir eu posso?
一 Você tem certeza? 一 Will se certificou.
一 Absoluta. Só não quero ir até o final e agora. Você compreende?
O loiro assentiu e voltou a me beijar.

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