Minha mãe não jogou tudo na mesa e sim esfregou na minha cara. Nunca tive o desprazer de ouvir algo tão terrível e imundo sair da boca de alguém antes. A minha vontade foi cavar um buraco e me enfiar dentro dele. Eu quis sumir pra sempre, morrer ali mesmo ou evaporar como água, bem aos poucos.
一 Não quer falar? 一 Perguntei, debochado. 一 Então deixe que eu comece.
Naomi me olhou com desprezo.
一 Desde antes do papai morrer, você me tratava como se eu não fosse nada e a fonte de todos os seus problemas ao mesmo tempo. Me coloca pra baixo, me despreza e desvaloriza tudo o que eu faço. De mim só espera o melhor e quando eu dou o meu melhor, você descarta os resultados. Menospreza o meu esforço. Eu sempre te respeitei e segui suas regras, mas nunca de cabeça baixa porque eu não aceito que você pise em mim. Eu sou errado por isso?
Ela revirou os olhos.
一 Você me compara com papai, como se ser parecido ou igual a ele fosse a pior coisa deste universo. Ele era um homem de valor, um bom pai e meu único suporte. Ele cuidava de mim, brincava comigo, me apresentou o universo de super heróis e Star Wars. A única coisa que você fez por mim foi me dar a luz. Nem me amamentar você fez. Por que você me odeia?
Minha mãe se levantou, deixou o livro em cima da mesa e me olhou friamente.
一 Porque você nasceu! 一 Gritou. 一 Acha que eu quis você? Acha que eu queria um filho aos dezessete anos? Acha que eu realmente quis perder uma parte importante da minha vida? Ainda mais por você?
Por um instante, pensei que fosse cair.
一 Eu e seu pai éramos jovens, loucos de desejo um pelo outro. Fui imprudente e engravidei. Casamos porque era o certo a se fazer com um filho a caminho. Achei que podia amar seu pai se desse uma chance. Achei que talvez eu te amasse quando nascesse. 一 Soluçou, começando a chorar. 一 Mas aí você nascei e eu só vi ali, nos meus braços, o motivo chorão de eu não ter entrado em uma boa faculdade de Direito. Eu só vejo, até hoje, um fardo excessivamente pesado que eu tenho que cuidar.
Lágrimas rolaram sem que eu notasse ou tivesse o controle disso.
一 Eu te odeio por atrasar e ferrar a minha vida. Eu te odeio porque você é exatamente como Apolo era na adolescência. Ele se arrumava pra ir pra escola, tinha seus amigos leais, falava sem parar das coisas que gostava, ria e sorria de tudo como um sonso. Ao menos ele era bonito, nem isso você é. Eu te odeio porque você é exatamente o tipo de pessoa que me enoja.
Limpei as lágrimas enquanto a raiva me apertava o peito.
一 Eu sou pansexual.
Ela deu de ombros.
一 Se fosse gay, o desgosto seria o mesmo. 一 Disse, ácida. 一 Aquele seu namoradinho... Eu vi vocês se beijando na chuva. Vi vocês juntos várias vezes. Qual é mesmo o nome dele?
一 Nico não é meu namorado. Nós só nos beijamos hoje e... Estamos flertando. Só isso. Mas claro que não é da sua conta.
一 Tsc, tsc, tsc... Seu pai tinha um crush muito forte por Jacinto na época da escola. Eu disse a ele várias vezes que o homem foi feito para a mulher e a mulher para o homem. É tão nojento.
一 Nojento é olhar pra você e ouvir essas merdas! Eu estou apaixonado por Nico e ele está apaixonado por mim, por quem eu sou. Amar não deveria ter regras tão controladoras.
一 Isso não é amor.
一 Amor é a única coisa que você não sente por mim. Eu sou a porra do seu filho. Fui gerado no seu ventre. Sou sangue do seu sangue. Sou um ser humano e sofro assim como você. Eu choro, sinto dor, vontade de foder a merda toda assim como você. Então me responda: Por que você não me abortou?!?!?
一 Sua avó! Leto me impediu e implorou por você. Quando você tinha nove anos, ela morreu e eu já planejava me separar. Ela pediu que eu ficasse com você alegando que uma criança precisa da mãe. Eu não ia ouvir, mas seu pai disse pra mim que não ia saber lidar com um adolescente, como se eu fosse saber.
Cambaleio pelo choque, mas me mantive de pé.
一 Seu pai era um idiota e você é ainda pior do que ele jamais poderia ter sido. A sua existência é o meu maior arrependimento.
Olhei Naomi nos olhos, tentando encontrar um indício de mentiras. Claro que ela não tava brincando comigo. E eu me odiava por ainda ter esperanças sobre ela.
一 Saiba que, antes dos treze anos, eu amei você de todo o coração e me culpei por vê-la brava ou triste. Te amei até perceber que esse é o seu normal comigo.
Depois dessas palavras, fui para o meu quarto. Olhei ao redor. Os posteres, os livros, os bonequinhos, as roupas. Me senti um erro e comecei a chorar com mais força. Deitei em minha cama, com o dedo percorri os desenhos da colcha que a cobria e me deixei ser levado pelo passado da mesma maneira violenta que a correnteza nos arrasta da margem.
Eu me sentia abandonado, jogado no lixo. A dor seria a mesma se eu tivesse engolido vidro. Minha mãe não me queria, não me ama, não me valoriza, não me quer vivo. Meu pai morreu de desgosto de mim? Eu era um fardo. Eu era a porra de um desperdício de tempo.
一 Will, onde você tá?
一 Seria melhor se eu morresse, Rach. Seria melhor se eu tivesse morrido no útero. Teria sido melhor se eu morresse agora.
Rachel pareceu assustada.
一 Não diz isso. Se você não tivesse nascido, eu não teria o melhor amigo de todos agora. Para com isso. Quem te disse essas coisas?
Eu soluçava demais para pronunciar. Me arrependi de ter ligado para ela.
一 Me desculpa. 一 Sussurrei.
一 Wil-
Desliguei.
Chorei até soluçar e não conseguir respirar. Chorei até meu peito doer e meus pulmões implorarem por ar. Chorei até me sentir vazio. Talvez eu mereça. Talvez eu tenha mesmo culpa. Talvez eu tenha estragado tudo. Talvez eu seja um nerd chato. Talvez eu seja insuportável. Talvez eu seja sem graça. Talvez eu tenha piorado tudo. Talvez meus amigos só falam comigo querendo nota. Talvez...
Talvez Nico esteja brincando comigo.
No momento que pensei isso, decidi duas coisas: Fugir e falar para Nico que, apesar de gostar muito dele, eu não queria mais nada. Não tinha como ele, um deus em carne e osso, estar apaixonado por alguém como eu, um fardo imundo e feio.
Mas quando ele estava ali na minha frente, preocupado comigo, eu não consegui. A dor ficou mais amena e eu pude sorrir. No banho, me lembrei do que eu ia fazer, mas não tinha coragem. Contei-lhe o meu passado com meus pais e ele me consolou. Disse que me ama.
Quando Nico tocava meu cabelo, eu lembrava da época que meu pai fazia isso pra mim. Eu não conseguiria "dispensar" Nico. Uma hora ele me rejeitaria, mas aquilo estava indo longe demais. Ele disse que me ama. E eu correspondo isso. Do fundo da minha alma, eu o amo. Eu amo Niccolò Di Angelo.
Me permiti ter aquele tempo com ele e me permiti ser amado. Sua voz, seu toque, seu cheiro, seu olhar, sua presença; Tudo nele me acolheu e consolou. Ali, completamente exposto e entregue a ele, eu me permiti amar como se fosse implodir e, apedar de todas as minhas falhas, fui correspondido.

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